Desde os 4 ou 5 anos de idade eu não leio nada de super herois, mas continuo fascinado pelo Jack Kirby. Pra mim, o melhor e mais expressivo artista gráfico contemporâneo, junto com Crumb e, ah sim, o cara que desenha o Smilinguido.
Imagino como deve ser satisfatório para um diretor de cinema ou teatro, trabalhar com atores que superam suas expectativas e dão aos personagens que interpretam, aquela dimensão grandiosa que um roteiro bem escrito prevê. Tive uma fração dessa sensação quando, no sábado passado, estivemos fazendo as fotos para o segundo capítulo de O Mistério da Pin-up Escarlate. Os atores que convidei para participar da fotonovela foram simplesmente maravilhosos. Dos três, dois já haviam trabalhado como modelos fotográficos, Glauco Caruso e Rafaela Zen, e souberam criar os persongens muito melhor do que eu havia imaginado. Diferente de mim, eles não puseram simplesmente uma roupa e se deixaram fotografar. Não, eles criaram personagens de verdade, pareciam saídos de filmes. Foram de um profissionalismo que me deixou constrangido. Espero não estragar tudo com o roteiro. Serão 5 capítulos ao todo. A fotonovela é publicada pela revista Inventa! que já deve estar na gráfica a uma hora dessas.
A Pin-Up Escarlate
Glauco Caruso
Um texto sobre um padre herege/canalha que atua numa paróquia cravada no coração da TFP curitibana. Mais um roteiro não-sei-do-quê destinado ao esquecimento em alguma pasta obscura do meu desktop.
Filho: - Por que a gente tem que vir cedo? Por que não podemor vir na sessão da noite? Mãe(ríspida): - Não é sessão que chama. Isso aqui não é cinema. Filha: - Porque de noite a mamãe tem que beber uma garrafa de vinho, jogar cartas e ingerir conversas tóxicas com as amigas divorciadas dela. Filho: - Mãe é hoje que você vai no clube das mulheres? Filha: - Não, é na quarta, depois da novena. Mãe: - Calem a boca os dois. São quase 10 da manhã, a mulher e as duas crianças caminham o mais rápido que podem para chegar a tempo na missa de domingo. Vários carros estão estacionados no pátio da paróquia e um bom número de pessoas bem vestidas vem chegando a igreja. Acima do porta vemos escrito em letras góticas: Igreja da Alma Tradicional da Classe-Média Curitibana. O padre está na entrada, recepcionando os devotos. Uma típica velha germânica que encontramos em bairros como Batel e Água Verde, com cabelo pintado de loiro e roupas em tons dourados, confidencia ao padre:
Velha: - Que decepção, Deus está aceitando negros em Sua casa, agora? Padre: - Sim, mas isso não significa que Ele os ame. Marido da velha: - Espero que o dízimo para eles seja mais caro. Padre: - Bem ainda são 10%, mas nós cobramos a hóstia e o aluguel dos bancos. Carminha???
O padrer se livra dos velhos e vai em direção à mulher e as duas crianças.
Padre(com um sorriso de verniz): - Carminha? Carminha: - Oi. Vim buscar a pensão dos dois. Padre: - Ã-han…fala baixo! Paciência, assim que devolverem a cestinha da coleta eu te passo o dinheiro. Menos 10%, claro. Carminha: - Estarei rezando por isso. Filha: - Oi, pai? Filho: - Oi, pai? Padre: - Olá…diabinhos. (continua…)