Aqueles é que eram os maus tempos Tomado pela abjeta nostalgia da infância, uma espécie de miragem mnemônica retroativa, resolvi rever o episódio "O Minotauro", do Sítio do Pica-Pau Amarelo, buscando sentir de novo, talvez, as mesmas sensações que sentia quando, na hora do almoço, com um prato de comida no colo, grudava a bunda no sofá para assistir as aventuras de Narizinho, Dona Benta e etc. Aliado a uma obra de meu ídolo do momento, Monteiro Lobato, com atores ótimos e feitos num tempo em que programas infantis não se preocupavam com merchandising, mas sim com conteúdo, havia o pensamento, equivocado, de que "aqueles é que eram os bons tempos". Não tinha como ser uma experiência frustrante. Mas foi. Nada mais errado do que achar que o passado foi melhor que o presente. Por que, exatamente, achar que tênis Montreal, kichutes, sapatos vulcabrás e congas são melhores que os tênis com amortecedor de hoje? Que os Ataris eram mais emocionantes que os Wii de hoje, que os Fiat 147 são melhores que os carros de hoje, que a tv da época era melhor que a de hoje, eu realmente não sei. Uma coisa eu tenho certeza: nossa Telefunken era muito pior do que a que a tv que tenho aqui em casa, agora.
Sítio do Pica-Pau Amarelo é bom, muito bom. Mas é chato, arrastado e um tanto cansativo. É algo como se Andrej Tarkovski dirigisse A Era do Gelo. Foi decepcionante, como foi decepcionante rever um filme dos Trapalhões, espisódios da TV Pirata, SNL dos anos 70/80 e reler algumas histórias da Disney. Se você quer manter intocável os mitos de sua infância, deixe que eles atuem apenas na memória, como uma recordação distante e agradável de um tempo que foi divertido, por sua inocência, pura e simples. É inútil tentar sentir as mesmas sensações de quando você era um hobbit banguela e despenteado, basicamente porque aquela criança está morta, não existe mais. Deu lugar a um orc peludo e bebedor de cerveja.
Ainda sobre a infância, o melhor final de história em quadrinhos que lembro, é o de Pateta faz História como Galileu Galilei. Ele tenta provar que a Terra é redonda mas, no final, o desenho de sua nau chegando à ponta do planeta e caindo no espaço é genial. Só que não pretendo ler isso de novo. Vou deixar no formol da minha memória, por via das dúvidas. (Benett)
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Escrito por Benett às 10h40
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