Blog do Benett


Bem, esta é a segunda e possivelmente a última parte do texto sobre o Batman. Todo mundo já viu o filme e já falaram as mesmas m#rdas, de modo que acredito que o assunto morreu e perdeu o interesse. Vou publicar essa segunda parte sem o final, sei lá...acho que serve ao menos como exercício para a falta de estilo. See ya, buddies!

PARTE II

Um filme adulto
Os últimos 20 minutos do filme são um verdadeiro lenga-lenga sentimentalóide que parece saído de algo como “O Pensamento Vivo de Mr. Frodo”, uma balela sobre culpa, remorso, bem e mal, digna daquela novela Mutantes, da Record. O filme poderia ter acabado antes, isso evitaria eu tomar toda a chuva que caiu aquela noite. E enquanto o filme estava nas cenas de ação –ou seja, o tempo todo- ele tava divertido, mas sempre surge aquele momento de “psicologia de história em quadrinho” para entediar todo mundo. Não que eu esperasse diálogos bergmanianos num filme do Batman, mas talvez fosse melhor se os diálogos tivessem sido escritos por alguém como…ahn…o Jacques Tatit ou o Harold Lloyd.

(FIM? Sei lá...não sou crítico de cinema)



***

Esta é a primeira parte do texto que escrevi sobre a aventura de ver um filme do Batman. Dividi o texto em duas partes, afinal, ficou muito longo e eu sei que leitores de blogs não têm tanta disposição e minutos disponíveis para perder lendo algo que exige algum tempo. Amanhã ou depois vou postar a continuação, ok? A merda são as palavras acentuadas e os cedilhas substituídos por pontos de interrogação. Eu não sei como resolver isso:>/

PARTE I

O Grande Vazio
Quando o final de tarde prenuncia uma noite de inevitável tédio, você se sente impelido a tentar evitar de qualquer maneira que isso aconteça, normalmente tomando atitudes impulsivas que podem te levar para a intensa alegria ou metê-lo numa roubada que o fará se arrepender amargamente por um bom tempo. O que não dá é para ficar sentado no sofá esperando sua alma ser lentamente inundada pela lama movediça do marasmo. Então decidi fugir para o cinema, ver o incensado novo filme do Batman, desta vez "para adultos", dizem os críticos. Claro, ninguém que já tenha perdido a virgindade leva o Homem-Morcego a sério, mas diante das opções, era o que me restava e eu resolvi encarar, mesmo que para isso tivesse que imergir no grande centro de convenções das almas vazias: o shopping center. Era uma aposta arriscada, minhas cartas eram baixas, mas agora não havia mais como abandonar a mesa. Só me restava blefar contra o destino.

O Cartunista vai ao supermercado
É bom observar as pessoas no shopping. Pessoas tentando desesperadamente parecer mais bonitas do que realmente são, mais ricas do que realmente são, mais elegantes e refinadas do que realmente são e, no final das contas, acabam por parecer meras versões animadas dos manequins de plástico e arame das vitrines. Mas falar sobre o quanto são superficiais e fúteis essas pessoas é mastigar velhos clichês que nem os fanzines punks mais adolescentes ousam escrever. Por isso, vou ficar em apenas uma personagem que vi no centro de alimentação do tal shopping. A ex-loira sedutora agora é uma velha decadente.

Noctâmbulos
Ela sabia que perdera a batalha contra o tempo. Não havia mais botox nem plásticas que dessem jeito naquelas peles enrugadas no rosto, talvez dois anzóis presos nos brincos segurassem um pouco a flacidez daquelas bochechas. Não havia mais como disfarçar a idade, sobretudo com seus três netos –um deles de uns 15 anos- ao redor. Bem, ela não era uma avó típica que prepararia suco de laranja e fritaria uns bolinhos de chuva para seus netos. Não, ela era fina demais pra isso, resolveria a fome deles pagando o maior e mais caro sanduíche do McDonald’s. Enquanto seus três demoniozinhos comiam e faziam bagunça na mesa, ela mantinha o olhar embaçado e distante, mastigando carne de vaca industrializada e pensando “eu envelheci. Nem os seguranças olham para minha bunda mais. Tudo o que eu queria era ter 30 anos a menos, como aquela garota ali do outro lado. Ah, bons tempos quando eu era do comitê eleitoral do Jaime Lerner”. Se removessemos todas aquelas pessoas do centro de alimentação e deixássemos apenas aquela velha magra com tinta loira no cabelo, vestido vermelho e bijouterias, a atmosfera bucólica de uma autêntica lanchonete fast-food vagabunda se encarregaria de transformar tudo numa cena digna de um quadro de Edward Hopper rejeitado pelo autor.

(Continua...)


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Escrito por Benett às 15h26
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crianças, atualizei meu blog de charges, o Charges do Benett. Tem link ao lado, ali abaixo...

Trechos mais interessantes de uma entrevista que dei para o Jornal da Manhã e que foi publicada no domingo passado. A repórter chama-se Graciela Mezzon:

Você lançou seu livro (Benett Apavora) no ano passado e está planejando um próximo. Como ele é/deve ser? Em que fase está e quando deve ficar pronto?

-É mais uma coletânea de tiras com aquele personagenzinho narigudo de boné (que não sou eu, porque, afinal, sou um pouquinho menos complexo que ele) , com alguns textos de humor e desenhos pretensamente elaborados. Tenho contato com algumas editoras que, espero, possam fazer uma distribuição melhor e botar um preço mais justo para o livro. Sei que livros não são bens de primeira necessidade, mas estou pensando numa maneira de dar de brinde um rim ou um pedaço de carne para quem comprar um exemplar.

Em que fase de sua carreira você considera estar? No auge?

Não. Eu espero chegar no auge aos 90 anos de idade, quando eu disser “bem, isso é o máximo que posso fazer, agora já posso ir molestar as enfermeiras do asilo sossegadamente”. Na real, ultimamente tenho valorizado a parte plástica do desenho, coisa com que não me importava muito no começo, por achar que a força do meu trabalho estava nas idéias, no texto. Mas penso que, se conseguir aliar uma melhor precisão gráfica, eu posso resolver uma charge de maneira mais fácil e eficiente. A idéia é encontrar uma equivalência entre a qualidade do discurso e a beleza do desenho. Então, acho que estou ainda numa fase de estruturação do meu trabalho. Falta muito ainda para eu sentir qualquer coisa remotamente parecida com “realização”.

Você disse que 'falta muito ainda' para sentir qualquer coisa remotamente
parecida com "realização". Você não é profissionalmente realizado?


-Não posso achar isso. Ainda tenho uns 40 anos de profissão pela frente, se não acontecer nenhum contratempo do tipo, eu morrer ou ganhar na Megasena, quero continuar desenhando. Ainda tenho muitas idéias para por em minhas
tiras e charges.

Como você define seu humor? E como você se define?

-Como uma incongruência sensata. O humor e sexo são duas coisas pelas quais eu fico satisfeito em ser homem e não um lagarto ou um esquilo. Nenhum outro animal faz humor ou sexo melhor do que nós, mas eu não posso dizer isso com toda a certeza para aquela atriz de A Menina e o Cavalo. Então eu fico satisfeito por pertencer à mesma espécie do Charles Schulz e do Matt Groening e, dentro disso, trabalhar com humor. Acho que meu humor é um mecanismo de auto-defesa, especialmente contra mim mesmo, já que sou eu o maior alvo das minhas piadas. O cartum me salvou. Eu encontrei Jesus num cartum do Jaguar.

Qual é esse cartum do Jaguar em que você 'encontrou Jesus'? Foi aí que você descobriu a sua 'vocação'?

Sim, antes eu era convertido ao Niilismo e depois do cartum do Jaguar, me converti ao Cartunismo. Era um desenho em que aparecia Jesus tocando violino e dois homens comentavam, ao fundo, "esse cara toca divinamente".

Como você começou a desenhar? Sempre desenhou ou acabou aprendendo e posteriormente aprimorou? E como começou a fazer charges, tiras, cartuns...

-Antes de eu aprender a segurar um talher eu já sabia segurar um lápis. Comia com o lápis e desenhava com a colher, mas isso foi só até os 16 anos. Aprendi a desenhar com meu irmão mais velho, que sempre estava rabiscando, então eu peguei o gosto. Depois descobri que isso era uma profissão, e não coisa de aluno vagabundo, como diziam meus professores. Sempre me ferrei na escola por causa dos desenhos. Antes me botavam numa sala vazia com uma câmera e ficavam me estudando através de um vidro. Hoje, eles estudam meus desenhos em apostilas e provas de vestibular. Uma pequena vitória pessoal, eu diria. Acho que comecei a fazer cartuns por uma questão de sobrevivência. Se não fosse isso, hoje provavelmente seria um mero coletor de alimentos correndo o risco de um avião derrubar uma garrafa de coca-cola na minha cabeça.

Quais são as suas principais influências? O que você ‘consome’, culturalmente falando?

-Acho que o DNA que corre nas veias dos meus desenhos remete àos filmes do Woody Allen; seriados de TV como Saturday Night Live; livros do Norman Mailer e os quadrinhos do Charlie Brown. Claro, tem muito mais referências, desde quando comecei, como a Chiclete com Banana e o Pasquim, até Adão Iturrusgarai e Will Ferrell. Essas coisas me inspiram realmente, porque encontro neles uma grande identificação de idéias e propósitos. Não escondo ou nego minhas influências, porque acredito que esse repertório de conhecimento me leva a buscar a originalidade. É isso o que espero.

Você saberia dizer de onde/como surgiu esse seu perfil de cartunista?

-Não foi numa liquidação das Casas Bahia, isso eu posso garantir. Muito antes de ser cartunista eu já tinha esse perfil, especialmente no que concerne ao meu nariz.

Sobre a pergunta do perfil, acho que quero dizer o seguinte: os seus
gostos, preferências, enfim, é que te levaram a se tornar cartunista ou foi
o inverso?


-Ahn...as duas coisas se aproximaram naturalmente. Mesmo
se não fosse cartunista, acho que eu seria um estivador
ou ascensorista fã de Groucho Marx e South Park.

***





Barry Blitt é o corajoso ilustrador, dono de um senso de humor particularíssimo, que desenhou Barack Obama queimando a bandeira dos EUA e vestindo turbante árabe para a capa da última edição da revista The New Yorker. Apesar das críticas acusando-o de mau gosto e agressividade gratuita, eu gostei do desenho, é de um sarcasmo sofisticado demais, que dá margem a interpretações fáceis demais - a armadilha preparada por Blitt funcionou, e ele consegue rir duplamente da estupidez humana. Ladies and germs, com vocês, Barry Blitt:

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Texto publicado na Gazeta do Povo, dia 19/07 sobre o chargista Ademir Paixão. Engraçado, ando sentindo o gosto de escrever novamente. Talvez um dia eu possa me dedicar mais a isso - mas isso não significa que eu vá ganhar a vida da forma promíscua com que os jornalistas ganham a vida ( Copyright Norman Mailer). E eu sou jornalista, lembrem-se. No momento, prefiro continuar ganhando a vida da forma promíscua com que os cartunistas ganham.

Tapas com luvas de pelica ( O título original era Ao Vencedor, as batatas. Um trocadilho com o nome do bar onde é realizada a exposição)

Quando você olha para uma charge do Paixão, começa logo a desconfiar que esse cara é um gênio do desenho. Como ele consegue desenhar o Lula de costas e ainda assim os leitores identificarem aquele desenho como sendo o Lula? Bem, quando você o vê desenhando uma charge – privilégio de poucos e ao qual tive acesso desde que fui afortunadamente contratado pela Gazeta do Povo em 2001– você enfim tem a certeza de que Ademir Vigilato da Paixão, 56 anos, 20 de profissão, é efetivamente um gênio do desenho.

Eu o vi criando uma charge do nada, o papel em branco, os óculos ao meio do nariz, um traço ligeiro aqui, outro ali, depois umas pinceladas de aquarela e…fez-se a charge do dia seguinte. Um insight materializado em forma de piada: a mágica está no fato de ser um humor “leve”, por conta do brilhantismo da caricatura e agilidade cognitiva das suas idéias; mas ao mesmo tempo “pesada”, pela crítica incisiva e precisa. Paixão bate com elegância.

E o mais intrigante, quase nunca usa texto para seus desenhos. Eu, como adepto das charges com texto, não consigo imaginar como ele conseguiu passar mais de 20 anos desenhando diariamente sem o auxílio de textos. Pelos meus cálculos (lembrem-se, eu reprovei em matemática três vezes) Paixão deve ter publicado quase 6.700 charges. Sem auxílio de balões ou legendas. Bem, para quem tem um humor e um desenho como o dele, não precisa de texto. Paixão é o Buster Keaton das charges.

Nós, leitores e fãs, estamos ainda esperando um livro do tipo Todo o Paixão ou ainda The Best of Paixão, com a compilação de seu trabalho, desde os primórdios, quando começou satirizando o bigodão do Sarney, até os dias de hoje.

Enquanto o livro não chega, você pode ir até o Espaço Cultural Beto Batata (R: Professor Brandão, 678 – Alto da XV) para conferir a exposição Paixão e Cidadania, uma retrospectiva com 50 trabalhos originais do autor, percorrendo alguns dos momentos mais importantes do que foi notícia no Brasil e no mundo. Estão lá suas charges sobre o Bush, Fidel Castro, Obama e, claro, o presidente Lula. A exposição fica em cartaz até o dia 31 de agosto.

Escrito por Benett às 08h41
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